segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Valor

A vida vale
um amor
O amor vale
uma vida

Ausência

A manhã escurece
A tarde se esquece
A noite é tão longe

Percurso

Nasci na madrugada
Cresci por toda parte
Mudei a cada instante
Troquei de cidades
Identidades
Procurei o amor
Conheci a dor
E o prazer
De esquecer
Fui de tudo quase
Nada de quase tudo
Antes de começar
Insisti em desistir
Desperdicei
Patrimônio
Renda
Pessoas
Não retive nada
Cheguei a lugar nenhum
Deixei o tempo pra trás
Voltei ao início
Não encontrei o fim
Recomecei o futuro
Renasci na madrugada

Agora

O dia, a noite, uma hora
Será cedo, tarde, será quando?
Faz frio, faz chuva, faz sol, faz tempo
Silêncio, barulho, ruído, estou mudo
É claro, cinza, dourado, escuro
Está longe, perto, é nunca, será depois?
A hora, de novo, martela, espera
É agora e de lá ou de onde
Sinto a sua respiração, aqui

Beatriz

Você me olhou
A primeira vez
E não tirou os olhos
De mim, sem parar
Quis te segurar
Meu coração disparou
Naquele instante
Tão pequena, tão linda
Nada nunca foi tão meu
Como naquele instante
Nunca mais foi nada igual
Porque você nascia
E desde aquela hora
Era para sempre
A minha Beatriz

sábado, 25 de setembro de 2010

As mulheres

Fui criado por mulheres. As mulheres me deram tudo. Carregaram-me no ventre. Sofreram as dores do parto. Ensinaram-me a andar. Falar, ler e escrever. Fizeram minha comida. Arrumaram minha cama. Pregaram meus botões. Pentearam meu cabelo. Passaram minha roupa. Contaram histórias. Faziam-me dormir. Mostraram-me a beleza. A literatura, a poesia, a música. Deram seus amores. Partilharam suas dores, seus temores, suas camas. Ofereceram seus sorrisos. Acolheram meu corpo. Entregaram seus corpos. Gestaram meus filhos, em seus ventres. Criaram meus filhos, em suas casas. Deram-me seus próprios filhos, mesmo quando não eram meus. Abriram seus espaços. Confiaram suas vidas. Suportaram minhas ausências. Toleraram minha presença. Ficaram sempre ao meu lado. Pediram tão pouco em troca. E eu me dei inteiro. E eu dei quase nada.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Sons da primavera

Lua leve
Leva em si
A longe luz
De lá do sol

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Restos de nós

De toda a espera, quimera
De todas as horas, demoras
De todos os tempos, inventos
Em tudo que corre, escorre
Sempre depois, restos de dois
De tudo que resta, só uma sombra
Sobra sem voz, do pouco de nós

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Dias de inverno

De manhã
Faz frio
À tarde
Faz vento
É noite
Faz tempo

domingo, 12 de setembro de 2010

tarde

à procura
da noite escura
não há mais cura
tardo a chegar
tão devagar
e só, então
anoitecer

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Dois corpos

Quase parado
um corpo acolhe
outro corpo na pele
como se fosse seu porto
e esse outro corpo exposto
navega até seu destino
em suave desatino
desconcertado
para, silencia
só respira.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Olhos nus

Teus olhos
Fixos
Olham
Incertos
E se despem
Nos meus
Olhos

Meus olhos
Nus
Olham
Inquietos
E se acalmam
Nos teus
Olhos

Hipnose

Teus olhos
Não são
Verdes
Azuis
Castanhos
Ou negros
São apenas
Teus olhos
Que irradiam
Todas as cores
Silenciam
As vozes
Emudecem
As palavras
Confundem
Os sentidos
E num relance
Apagam
Tudo em volta
Que não são
Teus olhos

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Perdas e danos

Perdas
Sentidas
Nos anos
Partidos
Em danos
Corroídos
De enganos

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Ilusionista

Seu corpo eu sei de cor
Aprendi a enganar a ausência
Com o artifício da memória

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Olhar

Teus olhos
Na luz
Da noite leve
Leva a noite
Ao instante breve
Dos meus olhos
Há tantos anos
Apressados
Insanos
E os faz parar
Só pra olhar
Sem pudor
Com tanto amor
O amor
Que se esconde
Na luz
Dos teus olhos

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Um amor só

Só tenho o prazer
De voltar ao começo
Mas chego ao meio
Do teu seio
Devaneio...
Entre tuas pernas
Sem estar, em nenhum lugar
Espero, desespero
Nada demais
E permaneço, sem saber ser
Um endereço, uma rua
Sem fim
Nem começo
No teu corpo
Assim...
Desse jeito, rarefeito
Desajeitado, em volta
Da vida, que não esgota
Nem uma gota
E inteira, sem nada em troca
Se alimenta, desse desejo
Tão sem fim
Nem volta...

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Tatuagem

No seu toque
Há uma memória
Que nunca se apaga
Já faz parte do meu corpo

Sentidos

Procuro seu gosto
A saliva mistura
A boca se perde
Nos lábios passados
Sempre ao seu lado
Mesmo à distância
Sinto seus poros
Respiro sua pele
Na minha inconstância
Escuto uma voz
Que não me fala
Dos restos de nós
A espera dos dias
Sem nenhum som
Ouço o silêncio
Silencio...

domingo, 4 de julho de 2010

Quando para

O tempo passa, rápido
Você passou, eu fiquei
E os dias não passam

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