entre sonos rápidos
vigílias profundas
alguma lucidez
e o resto
loucura
terça-feira, 2 de novembro de 2010
...
Nada a fazer, vou à livraria, pretexto.
Quero ver Manoela, vendedora bonita.
Resisto à rima, bonita, em vez de bela.
Mas ela é bela. Vai ter que rimar.
Terça-feira. É folga dela. Bela Manoela.
Não perco viagem, saio com Manoel
de Barros. Nas mãos. Um livro. E mais
esse poema. Detesto a palavra poema.
“O desenho do céu me indetermina”.
(Manoel de Barros)
Quero ver Manoela, vendedora bonita.
Resisto à rima, bonita, em vez de bela.
Mas ela é bela. Vai ter que rimar.
Terça-feira. É folga dela. Bela Manoela.
Não perco viagem, saio com Manoel
de Barros. Nas mãos. Um livro. E mais
esse poema. Detesto a palavra poema.
“O desenho do céu me indetermina”.
(Manoel de Barros)
Rarefeito
A distância não cansa, tão longe, avança, não se pode tocar, nem prazer, nem dor, só uma neblina, lenta, neutra, quieta, eficiente, que espalha indiferença, na busca do tempo, dissipa o corpo, em sanidades, mundo objetivo, impessoal, sem perguntas, não há respostas, permaneço inquieto, calado, espero.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
sábado, 30 de outubro de 2010
os dias
dia adormecia noite
noite amanhecia dia
sexta-feira dormia sábado
sábado acordava domingo
domingo virava sexta-feira
segunda-feira nunca existia
todo dia era dia, noite e dia
noite amanhecia dia
sexta-feira dormia sábado
sábado acordava domingo
domingo virava sexta-feira
segunda-feira nunca existia
todo dia era dia, noite e dia
Voo
Tento durar, acabo.
Tento acabar, esqueço.
Tento esquecer, acordo.
Talvez acordar, já passou.
Não posso ficar, vou.
Tento acabar, esqueço.
Tento esquecer, acordo.
Talvez acordar, já passou.
Não posso ficar, vou.
Pedra rosada
Rios escorridos nos primeiros janeiros
Brasas fugazes dos últimos dezembros
Lembranças corridas, em tanto invento
Abrem-se nas memórias dos longos abris
E se perdem em tempos de novos novembros
Misturando água, fogo e desejo, um só elemento
Brasas fugazes dos últimos dezembros
Lembranças corridas, em tanto invento
Abrem-se nas memórias dos longos abris
E se perdem em tempos de novos novembros
Misturando água, fogo e desejo, um só elemento
diurno noturno
não sonho mais quando durmo
e quando acordo sonho mais
mas não acordo mais
quando sonho...
e quando acordo sonho mais
mas não acordo mais
quando sonho...
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Lavador de pratos
Lavo pratos na cozinha de um restaurante chinês. Sem nenhuma eficiência. Devagar e distraído. Sempre prestes a ser demitido. Mas por alguma razão, nunca sou. Volto todos os dias. Ninguém fala nada. Ninguém me olha. Então volto de novo. Preciso do emprego. Então continuo. No vai-e-vem das pilhas de pratos, sinto fome. Vontade de pegar restos de comida que sobram nos pratos. Quase tenho coragem. Mas não dá tempo. Garçons e afins se atropelam na porta. Todo mundo reclama da minha lentidão. Sou desorganizado com as louças. Deixo as pilhas ficarem cada vez maiores. Mas finjo não compreender nada. Continuo. Enquanto a água limpa escorre quente, resseca a pele. Os dedos enrugam. Estou no calor das panelas fervendo. Tudo demora. O suor pinga da testa. Arde o olho. Queria ouvir uma música talvez. Mas só há o barulho da pressa dos talheres que batem nos copos. Sinfonia articulada dos segundos, que passam inteiros. De um em um. Segundo um ritmo pesado e lento. A hora de embora não chega. Até de madrugada, quando misteriosamente tudo acaba. Cozinha pronta para o dia seguinte. Então vou. No caminho até a estação do metrô, o vento escuro de janeiro em Canal Street dá saudade de uma casa qualquer.
Nova Iorque, 1988
Na pensão da dona Flor
Os beliches se revezavam
De dia, os trabalhadores da noite
De noite, os trabalhadores do dia
Imigrantes errantes
Nos lençóis mal trocados
De todos os submundos
Em sonos claros e escuros
Sonhavam fazer uma América
Há muito tempo perdida...
Os beliches se revezavam
De dia, os trabalhadores da noite
De noite, os trabalhadores do dia
Imigrantes errantes
Nos lençóis mal trocados
De todos os submundos
Em sonos claros e escuros
Sonhavam fazer uma América
Há muito tempo perdida...
domingo, 24 de outubro de 2010
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Desistência
De repente,
dia não chega
tarde se vai
noite não vem
madrugada sem
nada, não sou mais
ninguém além de
um só, que passou
aquém, de ser alguém.
dia não chega
tarde se vai
noite não vem
madrugada sem
nada, não sou mais
ninguém além de
um só, que passou
aquém, de ser alguém.
Despedida
Na hora das partidas
As palavras morrem
No olhar que se cala
E só vejo meus olhos
Pelo olhar dos outros
Olhos que se partem
Nas horas partidas
As palavras morrem
No olhar que se cala
E só vejo meus olhos
Pelo olhar dos outros
Olhos que se partem
Nas horas partidas
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
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