quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Auto-retrato

Lógico
Preciso
Conciso
Matemático
Esquemático
Cético
Econômico
Monossilábico
Sequencial
Social
Estruturado
Equilibrado
Civilizado
Desapaixonado
Apolíneo
Retilíneo

Sou tudo isso
Sou tanto isso
E nada disso
O contrário disso

Contraditório
Insatisfatório
Desajustado
Introvertido
Quase selvagem

sábado, 15 de agosto de 2009

Assimetria

O outro
Afasta
Sem mãos
Não toca
Adia a urgência
Pede o sono
Invoca o amor
Protela

O sono
Alivia
Mas não sacia
Engana
Com imagem profana
Em sonho impreciso
Pede o outro
Invoca o desejo
Espera

domingo, 12 de abril de 2009

Encenador

Em cena aberta
o ator
encena a dor
física
não teme o desejo
arrisca
um ato de risco
êxtase final
marginal
brutal
a faca fere fundo
enquanto o corpo
luta
o sangue escorre
no chão gelado
escuta
em silêncio
dirige a morte
canta o trágico
de mãos atadas
tantas facadas,
no último suspiro
não espera e
bonito que era
expia o bode
expira...
e inspira,
nunca morre.

Crescimento


Luxo
Prazer
Liberdade
Conforto
Riqueza
Beleza
Abundância
Arrogância
Juros
Lucros
Brutos
Swaps
Spreads
Stocks
Acumulação
Bestificação
Concentração
Consumação
Destruição
Extinção
Fim

sexta-feira, 10 de abril de 2009

ordem e progresso


a ordem inibiu
o progresso não
ordenou então
a desordem viu
a ordem desamparada
progressivamente se dissipar...

segunda-feira, 6 de abril de 2009

excesso


menos é mais
e o mais
sem o menos atrás
é quase pecado
não é de bom-tom

mas o excesso
com a sua inteireza
tem lá sua beleza

há tantas coisas
que quanto mais
nunca é demais

Encontro

O frio aqueceu
A solidão abraçou
A tristeza esqueceu
O tempo descansou

Relatividade

De repente
Um encontro
Vida a dois

Percepções alteradas

Na ausência
A hora demora
Na presença
O dia dispara

Na distância
Imenso deserto
Na proximidade
Encaixe perfeito

Tempo e espaço se confundem
Na ação, libido e paixão
Bocas e corpos se misturam

Desejo

Prazer acelerado
Alegria desmedida
Saudade insana

Imprevisível
O coração bate forte
O rosto enrubesce
Vive

Amor sem dor

De repente
Um desencontro
Uma vida a sós

Desassossego

Percepções adulteradas
Dor cadenciada
Tristeza metódica
Saudade cotidiana

Previsível
O coração quase para
O rosto empalidece
Sobrevive

Dor sem amor

As horas são sempre lentas
A distância sempre tão longe

domingo, 5 de abril de 2009

Separações

Desmontar a casa
Perdida em objetos
Transportar saudade
E levar um pouco
Do  que poderia ter sido
Mas não foi
Desviar o olhar
Recordar
Coisas banais
Olhar de ontem
Reviver
Uns segundos
Esperanças
Partidas
Então na partida
Calar
Não parar
Fazer
Lembrar de tudo
Tão instantâneo
Esquecer de agora
Continuar amanhã
Chegar
Em algum lugar
Seguir
Não se sabe pra onde
Sentir
Uma ponta de alívio
Um resto de dor
E no fim
Essa vontade de ir
Sem nada
Esse desejo de ficar
Sozinho
Por mais uma vez

Incompreensível

O ombro estremece
O ventre amortece
O peito estarrece

A boca umedece
A perna amolece
A pele floresce

O pescoço enaltece
O dorso endurece
O tronco desfalece

A mão aquece
A carne intumesce
A cabeça esquece

O corpo inteiro cresce
O inexplicável
Acontece

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Maternidade

Acorda, levanta, alimenta, ensina, leva, traz, orienta, arruma, penteia, bronqueia, organiza, sofre, endurece, enlouquece, agrada, amolece, cobre, protege, esquece, aborrece, aquece, chora, enfurece, enternece, explica, repete, acolhe, perdoa, defende, grita, irrita, sorri, abriga, prepara, transforma, acompanha, espera, alegra, estimula, engrandece, ajuda, cuida, apoia, encoraja, reclama, chama e ama ama ama...

sábado, 28 de março de 2009

Cotidiano

Entornei o caldo, queimei o pão, passei do ponto
Mordi a língua, espremi limão, adocei com sal
Derrubei a sopa, tomei um choque, caiu o botão
Perdi o bonde, larguei a chave, quebrei o prato
Manchei a roupa, errei o nome, esqueci o texto
Saí do tom, troquei o passo, chutei de canela
Pisei na poça, queimei o beiço, cai da cama
Prendi o dedo, recebi em moeda, furei o bolso
Fiquei sem troco, esfreguei o olho, rasguei a calça
Bati os dentes, parei na esquina, acabou a gasolina
Chouveu granizo, cortei o pé, andei descalço
Faltou a luz, subi de escada, entrei no chuveiro
Secou a água, caiu a toalha, molhei o chão
Virou o vento, peguei sarampo, vivi de escambo
Cheguei aqui, escrevi fiado, falei truncado
E não contei nem a metade da missa...

terça-feira, 24 de março de 2009

Desocupação

Determinação oficial
De justiça

Legalidade estrita
De direito
Positivo
Impositivo

Execução civil
Civilizada
Codificada
Justificada

Ação de desabrigar
Pessoas, alimentos, camas, estantes, mesas
Roupas, móveis, livros, brinquedos, fotos
O lanche separado, a lição de casa, o aquário...

Coisas ensacadas
Malas apressadas
Memórias arrancadas
Lembranças cortadas

Resta o espaço vazio
Esvaziado à força
Só sobra a poeira
Dos restos de ontem

Incerteza
Medo
Desproteção
Abandono
Despejo

segunda-feira, 23 de março de 2009

Vazio

Nas ruas, carros, luzes,
pedestres, afoitos.
Nas lojas, filas, produtos,
consumidores, aflitos.
Nas casas, móveis, paredes,
casais, alheios.
Nos bares, bebidas, anônimos,
cardápios, atônitos.
Em mim, pernas, braços,
pensamentos tardios,
espaços vazios.
Em todo lugar, solidão.

sexta-feira, 20 de março de 2009

literatura

livros são mais
comprados que lidos
mais citados que vividos

quinta-feira, 19 de março de 2009

Sutil

Em meio aos ruídos do mundo
Uma voz destoa e sobressalta
Com sons delicados
Torna-se única
Música

Conforto

O hábito
Torna habitável
Qualquer espaço
Torna suportável
Qualquer cansaço
Torna palatável
Qualquer pedaço
De qualquer coisa
Habitual...

Presença

Em som suave
Sua voz chegou
Rompeu o passado
Reavivou o presente
Inventou o futuro
Acolheu o agora
Tornou leve o escuro
Desvendou o amor
E trouxe a vida de vez

terça-feira, 17 de março de 2009

final

de resto
só o silêncio
ufa!
ainda bem...
além de
umas viúvas
amém

segunda-feira, 16 de março de 2009

Insônia

As horas se estreitam
Quando as luzes se apagam
Nas semanas cansadas de outono
Com os restos de vento
Do fim da tarde

Os sons se misturam
As noites se arrastam

Pelos cantos dos quartos
O sono mal chega e se vai
E os lençóis se acalmam
Enquanto os corpos paralisam
De medo da manhã
Que tarda a chegar
Até que num piscar de olhos
Tudo escurece
Amanhece

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