sábado, 26 de fevereiro de 2011

Bússola

Quero correr no vento da noite
Quero nadar na corrente do mar
Quero saltar da ponte mais alta
Quero sentir o vazio do ar
Quero atravessar o medo da estrada
Quero aprender decifrar teu olhar
Quero viver até o fim da madrugada
Quero ser outro pra poder te amar

Azul

O céu nem sempre foi azul
e só ficou azul por causa do mar.
O mar, com seus micro-organismos,
produziu a substância azulada do ar.
E o céu, em retribuição, coloriu o mar.




O amor

Tenho múltiplos interesses. Meu cérebro passeia por tantas áreas. Da astronomia à gastronomia. Numa velocidade espantosa. Caleidoscópica. Voo rasante sobre arte, ciência, filosofia, estupidez. Emaranhado em ecologias, economias, músicas instrumentais, geometrias fractais, cálculos diferenciais e integrais, tensões sexuais. Perdido pelo mundo. Cinema mudo, lutas de vale-tudo. Xadrez, francês, espanhol, futebol, direito ambiental. Até contabilidade social. São tantas rotas, itinerários, contas a pagar. Meu cérebro não para. A não ser quando escrevo. Porque escrevo só. Só com o coração. Lá onde toda minha trivialidade fica exposta. Onde tudo é tão irrelevante. Exceto o amor. Quando escrevo, só existe o amor. E do amor, não compreendo quase nada.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Espiral

Deslocado no tempo
espaço, só passo
vento, invento
um sol escasso,
alimento do vento
desinvento, o tempo.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Um

quero vagar pelo teu corpo
e abandonar meu corpo
inteiro no teu corpo
até o meu corpo
ser teu corpo
um corpo
corpo
só
corpo
um corpo
ser teu corpo
até o meu corpo
inteiro no teu corpo
e abandonar meu corpo
quero vagar pelo teu corpo

Fugidia

O rosto se esconde 
A boca me ilude
O gesto confunde
Mãos se recolhem
Olhos se perdem
Tua pele não toca
As pernas se calam
Meus sensos não falam
Os corpos não agem
O tempo se esquece
O calor entorpece
A fala me expulsa
O desejo não escolhe
Meu coração pulsa
Escrevo irregular
Sem simetria
Você não pode ser 
Fugaz como eu
Tento me dissipar
Sem nunca te beijar 
Teu beijo me mata

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

...

A dor de cada um
A dor do outro
A dor daqui
De todo lugar
A dor é uma só
É a dor do mundo

...

Por trás de cada desencanto
Havia tanto em cada canto
Por trás de cada desencanto
Havia tanto em cada espanto
Por trás de cada desencanto
Havia tanto em cada pranto
Por trás de cada desencanto
Havia tanto em nós encanto

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Retalhos

Às vezes vejo um pedaço dos teus cabelos. Ou a metade do teu rosto.
Um dia vi parte das tuas costas. Numa tarde vi o teu vestido.
Às noites vejo a sombra dos teus seios. Teus contornos.
Ontem ouvi tua voz. Era madrugada. E o quarto vazio.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Memórias


Nada é mais livre do que o mar. Ninguém pode aprisionar o mar, que avança sobre os continentes. Impassível. Se me tornasse um prisioneiro e vivesse numa cela escura, alimentaria meus dias pela memória do mar. A simples lembrança do vento sobre o mar aberto, já seria suficiente para viver livre em qualquer lugar.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

...

Há vezes em que a força
de um amor é tão imensa
que não é possível repeti-la,
nem mesmo com a pessoa
objeto desse amor,
nunca mais...

 

domingo, 2 de janeiro de 2011

Pai e filha

Sempre que encontro Beatriz o coração dela dispara no abraço. E fica acelerado um tempo. O meu quase para. Só pra escutar o dela. Até que os dois corações se equilibram. Entram no mesmo compasso. Que fica retido na memória. Essa é a nossa linguagem.

domingo, 5 de dezembro de 2010

...

Muito prazer
meu nome é
solitário
libertário
com defeito
contrafeito
estrangeiro
prisioneiro
inviável
imprestável,
sempre inacabado.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Temporal

Ando na chuva, Rua do Glicério, centro velho. Chove forte.
Poças de água, carros engarrafados, motos, bicicletas, pedestres.
Homens espalhados pelo chão. Vento e água esfriam meu corpo.
A caminhada me faz transpirar. Mistura térmica desconfortável.
Acabo de descobrir um furo na minha bota. Meus pés começam a molhar.
A chuva aperta, o vento acelera. Meus passos diminuem.
Sons silenciam. Só escuto pensamentos. Burburinhos internos.
Não consigo parar de pensar. Imagens, sons, tudo na minha cabeça.
Minhas meias estão encharcadas. Piso num buraco. Desvio dos obstáculos.
Parados como fotos de jornal. Uma multidão sem rosto.
Todos iguais a mim. Tão diferentes de mim. Todos somos rostos.
Em que estarão pensando todos esses rostos? Não importa.
Roupas molhadas. Botas pesadas. Frio e calor. Chuva e suor.
O burburinho aumenta. Quatro horas da tarde. Esqueci de almoçar.
Não tenho fome. Um pouco de sede. Boca seca. Cabelo molhado.
Um rosto aparece. Na minha cabeça. Vejo seu sorriso em flashes.
Homens sem dentes sorriem também. Nas ruas. Mulheres seminuas acenam.
Estou no meio das prostitutas. Dez reais o programa. Subo a ladeira.
Rua 25 de março. Dia 16 de novembro. Camelôs se enfileiram. Não há espaço.
Vendedores de guarda-chuva. Dez reais também. Fico molhado. Não quero gastar.
Preciso economizar. Endividado. Contas atrasadas. Continuo a caminhar
Um mulher que deve ter sido bonita na juventude olha pra mim, olho pra ela.
Torço o pescoço, imagino sua juventude, paro. Mais chuva...
Meus olhos ardem, chuva ácida, minha pele queima no vento da chuva.
Sinto que estou me consumindo. Vou me dissipar. E seu morresse agora?
Estou sendo sugado pelos meus pensamentos. Minha desorganização triunfa.
Nem sei mais onde estou. Procuro um táxi. Congestionamento. Carros parados.
Não vale a pena. Continuo andando. O frio agora toma conta.
A caminhada é mais lenta. Queria ser outra pessoa por um instante.
Mas tudo que eu tenho sou eu. Sou apenas o que sou agora.
Toda minha vida se resume nisso. Se eu morresse nesse instante seria só isso.
Um homem, botas molhadas, roupas encharcadas, bolsa pesada.
Posso continuar caminhando sem parar, que vai dar exatamente na mesma.
Não há ninguém a minha espera. Nenhuma casa, nenhuma pessoa.
Nenhum animal de estimação. Meus filhos não estão mais comigo.
Não tenho mais ninguém. Nenhum lugar pra chegar. Nada a declarar.
Tenho só o meu corpo molhado no tempo e no espaço dessa tarde de chuva.
Estraguei meu paletó. Tudo que sou é essa tarde do dia 16 de novembro de 2010.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sem estações

Não me lembro dos últimos novembros
Quantos sóis delicados, céus azulados?
Quantas nuvens aflitas, chuvas amargas?
Sinto falta dos próximos setembros...
Ah, se eu pudesse apagar todos os dezembros!

sábado, 13 de novembro de 2010

Acaso

Do compartilhamento
Ao estranhamento
Do acolhimento
À indiferença
Tudo se vai
Fica vazio
E agora?
Novos amores
Velhas esperanças
Outra vida
Outra pessoa
Um mal entendido
Dois desconhecidos
O que nos tornamos afinal?

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Remendo

Quando nada dá certo
descompasso o verso
desconcerto o passo
desconverso a coisa
descoiso a forma
invento palavra
invario ponto
inverto sinal
virgulo sujeito
separo predicado
desenho uma letra
arranjo, enfim, um final
e tudo fica assim, errado.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sinais

Minhas roupas estão velhas
Meus sapatos gastos
Os botões caem
Mangas puídas
Penduradas
Meus filhos crescem
Minhas costas doem
Os olhos turvam
Ombros doídos
Estremecidos
Meus cabelos estão brancos
Minhas mãos pesadas
Os joelhos estalam
Ossos partidos
Cicatrizados
Meus recursos estão no fim
Minhas posses escassas
As pessoas passam
Perdas vividas
Consumidas
Até os livros amarelados
No entanto
Meu corpo insiste
Reconheço os contornos
Dos tempos de ontem
Meu sorriso ilude
Minha pele engana
Meus músculos sustentam
Um brilho no olhar
Minha forma resiste
Espantosamente
Mas meu conteúdo está cansado
Envelheceu

Natureza

Meu amor nunca foi calma
Corpo que domina alma
Vivo na tormenta
Desejo que acorrenta
Nunca tive paz
Minha paixão é mais
Do que selvagem
Não há separação
Entre amor e paixão
Tudo é prazer e dor
Sou quase indomável

...

Não sei romper a forma
Nem inovar a linguagem
E meu conteúdo é trivial
Por que continuo escrevendo?

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